A vida da Graça
Espiritualidade Faça um comentário »Graça
A palavra “graça”quando utilizada em sentido simples e por si, refere-se àqueles dons invisíveis que residem e operam na alma, contribuindo para a perfeição do homem para capacitá-lo a cumprir seu fim último, que é viver eternamente com Deus. É portanto, um dom sobrenatural e interior de Deus, concedido para a nossa própria salvação.
Para entendermos sobre este tesouro imprescindível para nossa vida espiritual é preciso saber como foi o homem criado por Deus, como seria ele no estado natural e como Deus, por amor, o elevou a um estado sobrenatural, para que este gozasse de sua vida divina maravilhosa – puro dom!
- O homem Natural.
Criado por Deus, o homem é um ser composto de corpo e alma, de matéria e espírito, que unidos forma uma só natureza e pessoa.
Para São Gregório Magno: é um ser cheio de vida, que nasce, cresce e reproduz (como as plantas), reconhece os objetos sensíveis, tendendo para eles pelo apetite sensitivo com suas emoções e paixões, movendo-se com movimentos espontâneos (como os animais) e como o anjo, num grau inferior, conhece intelectualmente o ser supra-sensível, a verdade, e com vontade inclina-se para o bem racional.
Estas vidas se compenetram para concorrerem para o mesmo fim, que é a perfeição do ser completo e para tanto é preciso que suas faculdades inferiores, vegetativas e sensitivas, devem ser submetidas à razão e à vontade e esta condição é absoluta, pois na medida em que ela falta, enfraquece ou desaparece a vida, começa-se a dissolução dos elementos, enfraquecendo o sistema ocorrendo a morte.
- A Vida é Luta:
O homem vive em eterno conflito, pois suas faculdades inferiores, lançam-se para o prazer, enquanto as faculdades superiores tendem ao bem honesto. E nem sempre o que nos agrada é moralmente bom.
Para reinar a ordem, combatendo as tendências contrárias e triunfando, a razào deve atuar: é a luta do espírito contra a carne, da vontade contra a paixão. Mas é preciso dizer que os impulsos violentos do prazer sensível sobre o homem, não são irresistíveis e a vontade agindo na inteligência, pode atuar, prevenindo, inibindo, moderando e dirigindo os passos deste homem para o bem.
Pela reta razão vemos que temos que nos submeter plenamente Àquele que é nosso soberano Senhor, mas como custa esta obediência, porque temos dentro de nós, uma sede de independência e autonomia que nos chama a fazermos tudo por nós mesmos: é o orgulho,que só poderá ser vencido pela humilde confissão de nossa indgnidade e impotência, reconhecendo que somos criaturas e Ele é o Criador com plenos direitos sobre nós.
Por natureza, somos servos, criaturas de Deus.
Este é o homem no seu estado de natureza pura, que, aliás, nunca existiu, pois que o homem foi elevado ao estado sobrenatural, ou no momento da sua criação, como diz Santo Tomás, ou imediatamente após, como opina São Boaventura.
Homem Sobrenatural
Deus pela sua infinita bondade quis elevar o homem a um estado superior, dando-lhes dons que o elevaria a esta condição. A noção de sobrenatural, conforme nos ensina Tanquerey, em geral, é tudo o que supera a natureza dum ser, as suas forças atuais, as suas exigências e os seus merecimentos
Distingue-se-se duas espécies de sobrenatural: - Absoluto ou por essência (Encarnação e a Graça Santificante) e o Relativo ou quanto ao modo (Dom da integridade).
A – O Sobrenatural Absoluto
É um dom feito à criatura inteligente, que transcende todas suas exigências, sejam elas capacidades ativas e seus direitos. É um divino comunicadoo a uma criatura, sobrepujando suas exigências, de um modo finito, assim evitando o panteísmo.
A1 -Encarnação: Neste caso Deus une-se à humanidade na Pessoa do Verbo, de tal sorte que a natureza humana de Jesus tem por sujeito principal a segunda pessoa da Santíssima Trindade, sem ser alterada como natureza humana, assim, pois, Jesus, homem por sua natureza, é verdadeiramente Deus, quanto à sua personalidade. É uma união Substancial que não funde duas naturezas numa só, senão que as une, conservando-lhe a integridade, em uma só Pessoa, a Pessoa do Verbo; é pois uma união pessoal ou hipostática
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A2 - A Graça Santificante: é um grau menor de sobrenatural, onde o homem é modificado por Deus, de uma forma acidental, na sua natureza e capacidade de ação, não o torna Deus, mas deiforme, semelhante a Ele, capaz de atingi-lo pela visão beatífica, quando esta graça for transformada em glória e de o ver face a face, como Ele se vê a Si mesmo. Participamos da natureza de Deus, Ele vem a nós com sua graça maravilhosa!
Neste modo, não se transcende as capacidades ou exigências de toda a criatura, mas somente as de alguma natureza particular. Este seria o Dom da Integridade(Dom Preternatural) que completa sua natureza e o capacita a receber a Graça. Aperfeiçoa a natureza, mas não a eleva até à ordem divina, e não a muda substancialmente.
A união da Graça santificante, mais o dom da Integridade constitui o que se chama de Justiça original[/í], modo como o homem se tornou ao ser elevado ao estado sobrenatural.
O Dom da Integridade confere ao homem três privilégios: A Ciência Infusa, O domínio das Paixões e a Imortalidade Corporal.
A Ciência Infusa, é um privilégio só dos anjos, mas foi conferido a Adão, para faciltar o seu munus de cabeça e educador do gênero humano, dando a ele a capacidade infusa de conhecer a verdade e uma certa facilidade para adquirir a ciência experimental.
O domínio das Paixões Deus conferiu a capacidade de lutar contra as paixões desregradas, do orgulho, facilitando-lhe a virtude, mas não o tornou impecável. Adão não tinha a tirania da concuspicência, que o levava ao mal, mas tào somente uma certa tendência para o prazer, subordinada à razão. Sua vontade estava sujeita a Deus e por isso, suas faculdades inferiores estavam submetidas à razão e o corpo à alma: era a ordem, a retidão perfeita.
A Imortalidade da Alma Naturalmente falando, o homem está sujeito à doença e à morte, mas pela providência divina, foi preservado desta dupla fraqueza. Para assim mais livremente poder a alma cumprir seus deveres superiores.
– Os privilégios sobrenaturais
A-Por natureza o homem é servo, propriedade de Deus. Por um amor e uma bondade que não podemos entender e nem mensurar, Deus quis que o homem fizesse parte de Sua família, tornando-o um filho com direito à Sua herança. E para que isso não fosse apenas uma formalidade deu-lhe a participação de sua vida divina, com uma qualidade criada e real, que o faz participar já aqui na terra das luzes da fé, para um dia possui-lo no céu pela visão beatficica de Si mesmo, amando-o como Ele é. Fato dígno de louvor e agradecimentos eternos.
B- À graca Santificante ou Habitual, que por si já diviniza e aperfeiçoa o homem, une-se virtudes infusas e dons do Espírito Santo que colaboram mais ainda com este novo homem , o que se move e cresce com a ajuda de graças atuais, para que produza atos sobrenaturais, deiformes e meritórios de vida eterna, já que este é o fim a que o homem foi criado e elevado como filho de Deus.
O maravilhoso é que todos estes bens, com excessão da ciência infusa (que foi privilégio sómente de Adão), seriam como um bem de familia e todos aqueles que nascessem depois deste Pai, nasceria com todos eles, para se tornarem aptos a também verem a face de Deus, quando viesse seu fim e caso não os perdesse.
Este não tardou: Castigo pessoal e Castigo da sua posteridade
B1 – Castigo pessoal:
A consequência foi que Adão, que poderia ter perdido a vida, pela infinita bondade de Deus, teve ao invés da morte, a perda dos dons recebidos para ser um ser sobrenatural que o capacitaria a estar com Deus face a face, quando terminasse seus dias. Perdeu os dons preternaturais e a graça santificante, ficando com que lhe era próprio: a natureza e seus privilégios naturais. Sua vontade fica então enfraquecida, mas permanece livre e pode escolher entre o bem e o mal. Deus quis lhe deixar a fé e a esperança e no momento da queda (Gn.3- Proto - Evangelho_) já o deixa vislumbrar a visào do libertador, saído da raça humana, que trinfaria sobre o demônio e restauraria o homem decaído, e ao mesmo tempo, pela graça atual, lhes instigava ao arrependimento.
………… B2 – Castigo da Sua Posteridade:
Ela assim como Adão seria também privada desde o instante de sua concepção, da justiça original, isto é: da graça santificante e do dom da integridade. Dons gratuítos que seriam como um bem de família, caso Adão se mantivesse fiel, mas como não conseguiu, sua posteridade nasceu sem estes dons maravilhosos. A privação desta justiça original é o que se chama de pecado original, que seria um estado de decadência, uma privação, uma falta de uma qualidade que precisaríamos possuir para ver a Deus, pois a falta dela, afastaria os homens do reino dos céus.
Ao Messias, ao novo Adão, que desde este momento foi constituído cabeça da raça humana, é que estava reservadoexpiar as nossas culpas e instituir o sacramento da regeneração, para transmitir a cada Batizado a graça perdida pelo primeiro homem. Deus seja louvado! 
E como o dom da integridade ficou igualmente perdido, arde em nós a concuspicência, que se não for resistida com todas as forças, nos arrasta ao pecado atual. Somos pois, relativamente ao estado primitivo, fracos e feridos, diminuídos, sujeitos à ignorância, inclinados ao mal e fracos para resistir às tentações. São Tomas, nos mostra que uma vez perdido o freio da justiça original, que reprimia as paixões, a concuspicência tomou força e que esta capacidade de resistir ou não ou mesmo dela atuar de forma mais forte ou menos forte, depende do temperamento e caráter de cada pessoa, ou seja, nem todos agimos de forma igual, ela atua de acordo com cada pessoa, já que ele se manteve livre para atuar.
Mas é preciso dizer que Deus colabora conosco, pelas graças atuais que nos concede, em virtude dos merecimentos de Seu Filho e pela proteção dos anjos bons, sobretudo de nossos anjos da guarda
FONTE: A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey